OPINIÃO | “Premier League 2”? Futebol popular nela

Nesta semana, Andrea Radrizzani, proprietário do Leeds United — atualmente na Segundona Sky Bet EFL Championship — cogitou a criação do que chamou de “Premier League 2”: uma “Série B” do torneio de elite e, portanto, fora da English Football League-EFL, que cuida também da Terceira (League 1) e Quarta (League 2) Divisões.

Os motivos de Andrea Radrizzani são econômicos. Enquanto a EFL tem que dividir os atuais £ 90 milhões do seu acordo de mídia com a Sky entre 72 clubes (24 por campeonato), qualquer clube da Premier League fatura, sozinho, mais do que esse valor em broadcasting numa só temporada — é o caso, por exemplo, do West Bromwich, que, mesmo tendo caído como lanterna em 2017-18, embolsou mais de £ 94,5 milhões.

Ato contínuo — sempre segundo Andrea Radrizzani —, os rebaixados da Premier League ainda contam com os “paraquedas” (parachute payments), que desequilibram a disputa da EFL Championship e, consequentemente, inviabilizam as propriedades dos clubes com budgets menores — tanto que alguns deles mudam de mãos a cada três ou quatro anos, e outros se arriscam a quebrar (vide Bolton e, no momento, QPR).

Uma “Premier League 2”, então, garantiria sustentabilidade (e robustez) financeira também para os clubes não promovidos à “Premier League 1”. Mas isso funcionaria na pirâmide de divisões profissionais da Inglaterra? Nós entendemos que não, por dois motivos.

Primeiro: o TOP 6 da Premier League (Manchester United, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Tottenham e Liverpool) já tem criado problemas para dividir o dinheiro da TV com os demais 14 clubes da Premier League (lembra?); imaginemos, então, o que aconteceria se mais 20 clubes (ou quantos forem) de uma eventual “Premier League 2” entrarem nessa conta.

Segundo: a “Premier League 2” criaria um gap incomensurável entre si e a EFL Championship/League 1 (qualquer que seja a “Série C” substituta), que lidaria com os mesmos problemas dos quais Andrea Radrizzani se queixa hoje — contrato de TV menos valorizado, clubes rebaixados com “paraquedas”, que desequilibrariam a disputa, etc.

Ou seja: o problema não acaba — só muda de lugar e passa a afetar menos clubes. “Como resolver, então?” Nós temos uma ideia: valorizar o produto — ou seja, a EFL Championship — através da arquibancada. E não, não estamos falando sobre as médias de público do campeonato, que já são altas; o papo, aqui, é futebol popular.

Em vez de uma “Premer League 2”, nós lutaríamos para criar dispositivos que facilitassem a entrada voluntária (repetimos: voluntária, não obrigatória) da torcida nas administrações dos seus clubes, por meio de Supporters Trusts ou outras associações coletivas.

Essa mudança (que, tornamos a repetir, deve ser voluntária) cria automaticamente um forte componente social, que reforça as relações dos clubes com suas cidades e comunidades — ou seja, seus focos de público prioritários —, e tende a reequilibrar as finanças e, dessa forma, estabilizar as propriedades. Exemplos não faltam: o Swansea City (recém-rebaixado da Premier League), que manteve 21,9% de seu pacote nas mãos da sua Supporters’ Trust mesmo após a recente troca de acionistas majoritários; o Portsmouth (League 1) e o Newport County (League 2), saneado pela torcida; o AFC Wimbledon (League 1), recriado a partir das arquibancadas; o Exeter City (League 2), há 15 anos vivendo como community club, etc.

Ato contínuo, quanto mais clubes adotarem esse modelo, maior será o diferencial da EFL Championship como “o torneio da torcida” — como acontece, em parte com a Bundesliga no sistema 50+1. É outra atratividade, muito superior a ser a “Segunda Divisão” ou a “Divisão Reserva” (“Premier League 2”) dos tradicionais decaídos da Inglaterra. E quanto mais isso se espalhar pelas ligas de baixo — League 1 e League 2 —, melhor. Imagine, por exemplo, o que a torcida do Sunderland, que está bancando um rebaixamento doloroso à Terceirona nas arquibancadas, poderia fazer se tivesse mais poder?

Há segurança para tentar. No triênio 2020-24, o acordo da EFL com a Sky passará de £ 90 milhões para £ 120 milhões. E, como se espera, no mínimo, a manutenção dos £ 4,5 bilhões para o próximo acordo de TV doméstico da Premier League, os “paraquedas” e “pagamentos de solidariedade” — uma verba calculada com base no “paraquedas”, e repartida entre as ligas da EFL — continuarão entrando.

Por que não? Se é para criar um diferencial, que seja dando poder ao torcedor. Com a arquibancada em primeiro lugar — como sócio, e não apenas cliente —, não é preciso pensar em “Premier League 2”.

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Thiago Zanetin tem 33 anos e é redator publicitário. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na elite italiana.

Imagens: Divulgação.

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