Por uma escola com o nome Óscar Tabárez, “el maestro” do Uruguai

Na linguagem do futebol, técnico é professor. E poucos merecem esse tratamento com Óscar Washington Tabárez, el maestro do Uruguai.

Primeiro porque Tabárez é, de fato, professor — no início dos anos 1980, lecionou numa escola primária do bairro de Cerro, em Montevidéu, para complementar o modesto salário que recebia por comandar o Bella Vista, em seu primeiro trabalho como DT logo após pendurar as chuteiras de sua curta carreira de jogador.

Segundo, porque, sob a batuta de Tabárez, o Uruguai reaprendeu a ser grande. Quando, em 2006, el maestro deu início à sua segunda passagem pela celeste (a primeira ocorrerá entre 1988 e 90), encontrou um ambiente destroçado pela eliminação frente a Austrália na respescagem para a Copa do Mundo FIFA daquele ano. De lá para cá, a seleção carimbou todos os passaportes mundiais, chegando à quarta colocação em 2010 e às quartas neste ano; venceu a Copa América de 2011; e, pelos pés de jogadores como Forlán, Abreu, Suárez, Cavani, Godín e outros, mostrou que a característica garra uruguaia casa melhor com pegadas técnicas do que violentas.

E, terceiro, porque, além de educação primária e futebol, Tabárez ainda ensina, aos uruguaios e a quem quiser ver, a resiliência de quem convive com, mas sem se render à, Síndrome de Guillain-Barré — uma doença que atinge o sistema nervoso e limita os movimentos; seu esforço para se levantar e comemorar, aos gritos de “Uruguai nomá”, o gol de Giménez, que deu a vitória ao Uruguai contra o Egito, na estreia da Copa 2018, já está no imaginário popular dos Mundiais.

Como pagar de volta a alguém que ensina tanto, em tantos campos diferentes. Óbvio: dando seu nome a uma escola — pública, para consagrar seu legado popular.

É justamente isso que busca a campanha #UnaEscuelaParaElMaestro, que lançou uma petição (veja aqui) na plataforma change.org (a mesma que os argentinos utilizaram contra o técnico deles, Sampaoli), destinada ao Ministerio de Educación y Cultura do Uruguai, para que se faça a “Escuela Pública Óscar Washington Tabárez”.

A meta inicial, de 7.500 assinaturas, vai ser superada com folga, a qualquer momento. Abaixo, o manifesto integral:

MUITOS TÊM SEUS MONUMENTOS. “EL MAESTRO” MERECE UMA ESCOLA.

Homenagear na é uma tarefa fácil. Às vezes, é preciso esperar que o homenageado morra para que seus feitos ganhem valor; em outras, questiona-se de maneira dura os méritos para que alguém seja digno de reconhecimento; e ainda em outras — como esta, talvez —, encontra-se a oposição do homenageado.

Guiado sempre pela humildade, “El Maestro” talvez julgue essa iniciativa como um despropósito, porque, como bem disse dias atrás, na Rússia, logo após a vitória do Uruguai contra Portugal, “não se celebram vitórias com alarde”.

Mas também é verdade que as homenagens são iniciativas populares que um só homem não pode parar; porque, nelas, avalia-se a obra, não quem a fez. E ainda que “El Maestro” tenha vencido mil batalhas, nada pode contra o passado que construiu.

Uma estátua ou um monumento, muitos já as têm, exclusivamente pelos méritos futebolísticos, que até podem ser muito maiores do que os de Óscar.

Mas uma escola pública — isso é algo mais, uma homenagem digna de um professor.

#UNAESCUELAPARAELAMAESTRO

E se você ainda acha tudo isso mera “publicidade”, lembre-se que Óscar Tabárez usou uma das coletivas desta Copa 2018 para cobrar, pública e mundialmente, o governo uruguaio sobre a aprovação de uma lei que destinará mais dinheiro do PIB para a educação — porque, segundo ele, “não adianta vencermos o Mundial da Rússia se as crianças não souberem onde fica a Rússia”.

Raríssimo.

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Thiago Zanetin tem 32 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na elite italiana.

Imagens: Divulgação.

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Category: Futebol Marketing

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